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Casa-Horizonte // uma casa-satélite

  • Foto do escritor: Lucas de Vasconcellos
    Lucas de Vasconcellos
  • 10 de jun. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 3 dias


Todo 8 de dezembro, do alto da torre da Igreja de Nossa Senhora da Conceição, ecoa o sino que anuncia o dia da milagreira dos menos afortunados. Na mesma época, os terreiros do território celebram Oxum, senhora das águas doces, presença viva de matrizes iorubás trazidas da África para o Brasil no contexto violento da colonização e da escravização que também atravessou e reorganizou os territórios indígenas das Américas. Na Lagoinha, essas camadas não se anulam, elas coexistem. O sagrado, aqui, não cabe em uma só língua.


Um quarteirão acima da igreja, na Rua Jequeri, nome que ecoa variações populares como juquiri, termo de origem tupi-guarani usado para designar arbustos espinhosos do gênero Mimosa, comuns em paisagens de cerrado e caatinga, ergue-se o Edifício Paulete. O juquiri é planta resistente, de folhas pequenas e espinhos, muitas vezes usada como cerca viva, marcando limites e sobrevivendo em solo pobre, clima duro, terreno raso. Não é pouca coisa que uma rua carregue esse nome: ele guarda na pele da cidade um vestígio de linguagem indígena e um retrato botânico de persistência.


Erguido entre as décadas de 1960 e 1970, o Paulete carrega no corpo a marca de uma Belo Horizonte que ensaiava seus próprios futuros. Moradores mais antigos relatam que, por muitos anos, o topo do prédio chegou a sustentar um grande letreiro publicitário, prática comum na época, quando a cidade fazia das alturas um palco de visibilidade, transformando certos edifícios em suporte para marcas vistas de longe, quase como faróis comerciais na paisagem. Conta-se que ali existiu um letreiro da Philips, instalado no alto, dominando o horizonte. Hoje, não há resquícios: o anúncio sumiu, mas a lembrança permanece, como uma camada que não se vê, mas ainda desenha a memória do bairro.


O edifício modernista abriga hoje 180 lares, com apartamentos que variam de cerca de 50 m² a 100 m², concebidos desde a origem como moradia popular, projetada para acolher e organizar a vida de quem constrói a cidade todos os dias. Cada unidade se divide como pequenas colmeias: três cômodos principais, circulação direta, e janelões generosos que se abrem por completo, abrindo o interior para a paisagem, como se o projeto soubesse que ar, luz e horizonte também são dignidade. São três blocos, e seis vãos de janelas que se encaram, criando um mundo interno de presenças, rotinas e vigilâncias delicadas. Quase todas as janelas dão umas para as outras, compondo um miolo de convivência. Mas os apartamentos que estão nas bordas dessa grande colmeia escapam desse espelho e recebem a vista aberta, um respiro panorâmico onde a cidade se derrama inteira.


Aqui, o chão não é só superfície: é documento. Os corredores preservam os pisos compostos por cacos cerâmicos avermelhados, guardando uma memória técnica e social, solução comum em habitações operárias, feita a partir do reaproveitamento de sobras da indústria cerâmica. O piso reluz de tão encerado. Há um pacto silencioso de limpeza e cuidado, uma espécie de coreografia coletiva que atravessa décadas. A acústica do prédio ensina convivência: o som corre, o som volta, o som denuncia. E por isso o respeito também vira arquitetura.


No fim do túnel aveludado em tons de vermelho escuro, a luz aparece como um sopro. Não é efeito estético: é experiência física. A claridade estoura no olhar e devolve ao corpo a sensação de que existe ar, de que existe mundo. Penso, inevitavelmente, nos corredores labirínticos de O Iluminado, mas aqui não há terror. Há permanência. Dos blocos conectados pelos corredores, o corpo logo entende: estamos dentro de uma colmeia. O sol, como abelha-rainha, distribui sua luz sobre os 180 lares organizados em três blocos alfabéticos. E no último andar do bloco C está a Casa-Horizonte, meu lar, que funciona como um satélite urbano: lugar de observação, criação e escuta do território.


Os porteiros, alguns deles há dez, vinte anos, fazem parte do cotidiano de 180 famílias como quem sustenta uma cidade em miniatura. Eles conhecem o ritmo, as ausências, as mudanças, os retornos. Há algo de quase comunitário nisso: uma estrutura feita para abrigar mais pessoas, organizar coexistências, distribuir a vida em camadas. Quase um projeto comunal no gesto e, ao mesmo tempo, inteiramente inscrito na lógica urbana moderna de concentrar, empilhar, otimizar. A contradição não é defeito: é retrato. Belo Horizonte sempre foi essa cidade feita para receber gente que chega e, ainda assim, nem sempre acolher do mesmo jeito.


Das janelas amplas de inspiração modernista, abre-se um ângulo de 180 graus. A fronteira entre Lagoinha e a região Centro-Sul aparece escamoteada pelos brises da Rodoviária Central, como se a cidade insistisse em construir camadas para esconder suas próprias costuras. Dali, a Avenida Afonso Pena se anuncia como eixo e vitrine: uma extensão lapidada, em parte, pelas pedras extraídas da Pedreira Prado Lopes. Ela segue até encontrar a Serra do Curral, monumento natural e marco simbólico de Belo Horizonte, hoje pressionada pela mineração e pela especulação imobiliária, como se o futuro ainda repetisse, em outros termos, a mesma lógica de extração.


É nesse cenário que o Observatório da Terra inaugura sua primeira edição. Não para medir o tempo com régua, mas para tentar compreendê-lo em suas dobras. Como nos ensina Leda Maria Martins, o tempo do mundo não corre em linha reta: ele gira em espirais. E esta edição escolhe habitar esse giro, atravessando vivências cotidianas, paisagens culturais e fricções urbanas que fazem da Lagoinha muito mais do que um bairro.


Aqui, a cidade não repousa. Ela respira, em terra e memória.

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Realização:

Régua LPG Monocromatica Preta (1).png
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