Fabulações para um território chamado Lagoinha
- Lucas de Vasconcellos
- 4 de out. de 2024
- 2 min de leitura
Atualizado: 7 de mar.

Esta jornada nasce do desejo de escutar o mundo dos objetos, mesmo quando estes se encontram escondidos, soterrados, encimentados ou silenciados na paisagem. Nasce também da convivência do meu olhar, enquanto museólogo, pesquisador, curador e artista, com um território que, historicamente, é atravessado por uma encruzilhada pulsante. Entre viadutos, passarelas, ruas e avenidas, circula toda sorte de escambo de objetos, como se o mundo material recusasse a finitude das coisas e de seus sentidos.
Neste território, o tempo não anda em linha reta. Ele espirala, como nos lembra a poeta e pensadora Leda Maria Martins. O Ribeirão Arrudas, hoje soterrado e silenciado, continua a atravessar a cidade. Os pisos de cacos vermelhos das antigas casas da classe operária ainda brilham. Quadros de artistas errantes aguardam seus nomes. E os antiquários, ainda sobreviventes, preservam gestos de afeto, de troca e de silêncio.
Nesta série embrionária de textos, o Observatório da Terra se debruça sobre cenas, ou melhor, sobre imagens subtraídas de um mesmo organismo urbano. A Casa-Horizonte, que atua como uma casa-satélite, tornou-se ponto de observação para a torre que abriga o sino da Igreja de Nossa Senhora da Conceição; para a Esquina dos Aflitos, encruzilhada onde historicamente o comércio dito “ilegal” de Beagá abriga economias de resistência e narrativas de sobrevivência da população de rua; e para Memórias em Cena, onde objetos repousam como se pudessem se travestir de novos personagens antes de seguirem viagem, como na história inventada sobre a autoria de um artista que nos convida a pensar a fabulação da memória como gesto político.
Importa dizer que, neste experimento, os textos não são reportagem, nem conto, nem tese. São ensaios nascidos de narrativas visuais, por vezes experienciadas in loco, por vezes surgidas como lampejos a partir de pesquisas realizadas em acervos de museus, arquivos, bibliotecas e centros culturais da cidade que acolheram nossas perguntas sobre o passado da paisagem cultural da Lagoinha, muitas vezes silenciada pela narrativa oficial atribuída à história de Beagá.
É o caso do ensaio fragmentado sobre a Esquina dos Aflitos, produzido pela ORO PRO NOBIS Filmes e encontrado em fita de videocassete durante escavações arquivísticas realizadas no Museu da Imagem e do Som de Belo Horizonte. À equipe do museu, fica nosso agradecimento pela parceria durante o processo de pesquisa do Observatório da Terra: Edição Lagoinha.
Que esta primeira edição possa despertar o desejo de reativar, reinterpretar e reencantar o passado, o presente e o futuro dos nossos territórios.
Lucas de Vasconcellos


